sábado, 10 de dezembro de 2016

Poesia 53

O Colégio Pedro II em 1976 era como um viveiro
De garotos e garotas bonzinhos pra serem uns cretinos quando crescessem
A educação evoluiu muito nesses anos todos
Agora já nascem zumbis e a internet faz a pós-graduação deles
Desde pequeninos se torcem pepinos
Eu sempre penso em escrever umas memórias da minha juventude
Um filme maluco da vida do artista quando um jovem cretino
Mas fico com umacunaímica preguiça de escrever isso
Nesse poema eu falo um pouco desse tempo
Naquela época eu fazia muita coisa todo dia
Por exemplo
Toda hora
Poesia
E ouvia umas músicas geniais no rádio do meu quarto quando chegava em casa
Quando acordava não conseguia comer nada
Tomava um copo de leite com nescau forçado
E quando as aulas acabavam meio dia e cacetada
O CPII que eu falo é na Marechal Floriano
Eu saía andando pelo centro todo
A procura de gente de verdade
Levava a lanterna nos meus olhos
As mãos não tapavam a claridade
A cidade o centro todo cheio de canteiros de obras do metrô
Eu ia em todas livrarias que encontrava
Ficava meses namorando um livro
Que às vezes eu comprava
Pra não gastar os três cruzeiros do lanche
Eu guardava não lanchava
Em um mês ou mais
Dava pra comprar um livro
Por exemplo
Daquele tempo
Crestomatia Arcaica
Que me deixou vidrado fissurado
Nem conseguia dormir
Pensando em ler
As poesias do galego português
Oh mya senhor fremosa ja non dormho
Gostava de uma menina
Quando ela abandonou a escola
Eu fui me apaixonando em rodízio pelas outras todas
Quando ela faltou na segunda semana de aula
Eu fiz esse soneto em segredo pra ela:

Compreender sua falta
É achar tudo vazio,
Entender o riso falso,
Respirar um sonho vago;

A voz que dentro me fala
Me diz só que nada vale,
Que caído dentro da vala
Do sentir, tudo me falha;

Compreender que você
Por hora ainda não veio
E eu nada posso fazer,

Sentindo este amargo frio
Que me produz teu faltar,
É, quieto, vociferar. 


Ela leu na época
Falou genial!!!!!
"Quieto vociferar"
Um dia eu falei pra ela que era um gênio
Ela falou que eu não conhecia muita gente
Que estava me pautando pelas pessoas que me cercavam
Eu namorava as letras enigmáticas
Das línguas desconhecidas da humanidade
Todo dia lia o JB nas aulas
Um dia vi uma notícia que me pareceu fundamental
Coloquei no quadro da sala
Descoberto o quark q = 1/3 e
As meninas perguntaram se era matéria da prova
Falei que era a nova descoberta do quark
Elas me chamaram de louco
Que eu não ligava pra prova
Fazia correndo
Enquanto a professora ditava
Quando ela acabava de ditar eu entregava
Toda resolvida
Todos me chamavam de maluco nessas horas
Igual ao Gentileza
O Gentiliza que eu vi andando pelo centro
Com sua roupa de profeta e seus cartazes de mão
Eu devia ter plagiado sua fala
“Sou maluco para te amar e louco para te salvar”
Então se passaram décadas
E eu reencontrei uma pessoa dessa escola
No inferno nazista da internet
E ela curte quase tudo que eu posto
Deve estar inspirada
Pelo tempo
Que não passa
Como pássara
No ginásio
Nesse tempo era ginásio
Me chamavam de Profeta
No segundo grau
Nesse tempo era segundo grau
Meu apelido ficou sendo Poeta
E quando eu a encontrei e adicionei no facebook
Ela não reconheceu
Mas quando eu falei que era o Poeta
Ela se surpreendeu
E foi gentil
Quem sabe um dia eu escrevo essas histórias
Hoje não dá pra escrever nada
O cosmos está todo alvoroçado

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